A literatura clássica sobre pirataria e exploração ganha uma atualização visual de peso com a chegada de A Ilha do Tesouro ao catálogo do MGM+.
A produção conta com seis episódios e resgata a célebre obra do autor Robert Louis Stevenson. Ambientada no implacável ano de 1788, a trama acompanha a violenta jornada do jovem Jim Hawkins e de sua mãe, Bess, em uma corrida internacional por sobrevivência.
Ambos são arrastados para uma letal disputa pelo ouro perdido do Capitão Flint, cruzando os mares da Cornualha rumo a uma ilha tropical carregada de segredos mortais. Na disputa pela cobiçada fortuna, figuras perigosas se destacam, como o revolucionário Aaron Graham (Jack Huston) e o famigerado e astuto pirata Long John Silver (David Oyelowo).
Porém, embora a premissa de A Ilha do Tesouro pareça familiar ao grande público, o verdadeiro diferencial do projeto passa longe de ser apenas uma adaptação visual. O grande chamariz para a série do MGM+ não é a ação mostrada nos trailers, mas as profundas alterações narrativas reveladas pelo próprio elenco principal.
Durante entrevista como Pop Séries, Hayley Atwell e David Oyelowo abriram o jogo sobre as drásticas mudanças feitas no roteiro clássico. A dupla detalhou como a história de Stevenson foi completamente reestruturada para ganhar camadas psicológicas que o livro original optou por deixar de lado.
Hayley Atwell recriou uma das personagens de A Ilha do Tesouro
O foco principal dessa modernização narrativa atinge diretamente a personagem Bess Hawkins, que no romance original recebe apenas menções passageiras no início da obra.
Interpretada por Atwell, a mãe do protagonista finalmente ganha um arco central, transformando a dinâmica familiar na âncora dessa caça ao tesouro. “Ter a Bess de forma integral na trama já é algo totalmente diferente, porque ela é mencionada apenas brevemente no livro como a mãe de Jim Hawkins, nosso protagonista”, detalhou a atriz.
Segundo Atwell, a forma como a equipe criativa incorporou a figura materna ao universo árido dos piratas foi o que realmente a atraiu para a superprodução. “Receber esses roteiros e ver uma mulher que se encaixa perfeitamente na linguagem e no mundo que Robert Louis Stevenson já havia criado foi uma atualização realmente sofisticada”, pontuou.
Ela destacou que essa mudança em A Ilha do Tesouro foi uma estratégia inteligente da direção para convidar o público feminino a se envolver de forma mais direta e profunda com a história. Contudo, Atwell foi categórica ao impor seus limites artísticos, deixando claro que jamais aceitaria integrar o elenco para preencher uma cota vazia na televisão.
“Eu não estava interessada, no entanto, em ser apenas a mulher simbólica ali. Houve momentos em que senti que seria um grande desserviço para todos nós”, revelou a atriz com firmeza. Para a estrela, “se apenas por ter a Bess ali como alguém reativa e passiva, ou apenas um tipo de mãe, não houvesse realmente um propósito para ela em termos de narrativa”, não faria sentido participar.
O desafio de viver Long John Silver

Do outro lado dessa balança moral, o lado físico e psicológico das cenas de ação também foi repensado para refletir a complexidade do vilão Long John Silver.
David Oyelowo encarou o intenso desafio de dar vida a um estrategista que possui uma restrição motora clássica, mas que transforma isso em uma vantagem brutal. “Eu nunca havia interpretado um papel de alguém que não tem uma perna e que precisa operar de uma maneira muito física, apesar desse impedimento”, confessou o ator durante a entrevista.
Para entregar embates realistas, Oyelowo precisou desenterrar habilidades antigas de esgrima que ele havia praticado exclusivamente durante sua formação teatral. “Sabe, na verdade, eu fiz muita luta de espadas e coisas assim na escola de teatro. Nunca tive a oportunidade de utilizar isso em uma série de TV ou filme antes”, relembrou entusiasmado.
Ele explicou que a coreografia foi milimetricamente desenhada para revelar a verdadeira essência manipuladora do pirata, fugindo de clichês televisivos. “O que sempre procuramos como atores é não fazer apenas algo genérico. Você não quer fazer uma cena de ação apenas por fazer”, ressaltou o intérprete de Silver.
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Para Oyelowo, cada movimento letal na frente das câmeras expõe um detalhe sombrio e calculista sobre as reais intenções de seu personagem na ilha. “Para mim, ver o fato de que ele finge ser fraco e, de repente, usa essa própria fraqueza como uma arma diz a você um pouco mais sobre quem ele é. Foi muito agradável interpretar”, analisou.
Ao compartilhar experiências dos bastidores de A Ilha do Tesouro, Oyelowo arrancou boas risadas ao revelar a identidade do colega de elenco que mais lhe deu trabalho durante a produção. O ator brincou que o emblemático papagaio Dino, presença obrigatória no ombro de Long John Silver, roubou completamente a cena nos estúdios do MGM+.
“Depois da Hayley, o Dino foi o melhor ator com quem tive que trabalhar. Falando sério, imagina um papagaio bem treinado. Ele realmente acertava todas as marcas”, revelou.
E você, acredita que essas mudanças radicais e a nova dinâmica familiar vão tornar essa versão de A Ilha do Tesouro a melhor já adaptada para o audiovisual? Deixe sua opinião sobre a estreia!
Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.




