Bom Dia, Verônica: veja entrevista com Tainá Müller, Camila Morgado e Eduardo Moscovis

Bom Dia, Verônica estreia na Netflix no dia 1º de outubro, trazendo para a tela uma das parcerias mais incomuns da literatura policial brasileira recente: a criminóloga Ilana Casoy, consultora em casos reais de serial killers no Brasil, assinou o livro original ao lado do escritor Raphael Montes, ele próprio conhecido por thrillers psicológicos como Perfume de Gardênia e Dias Perfeitos. A combinação entre expertise forense e ficção calculada está na espinha dorsal da série.

A escrivã que não espera ordem

A protagonista Verônica, vivida por Tainá Müller, não é delegada, não tem badge de detetive e não age pelo sistema. É escrivã, função que existe nos bastidores da investigação policial, longe dos holofotes, e que a série usa como ponto de vista deliberadamente limitado. Verônica acessa arquivos, ouve relatos, vê o que a burocracia engaveta, e decide agir por conta própria nos casos de violência contra mulheres que o Estado descarta.

Em paralelo, Janete, interpretada por Camila Morgado, é casada com Brandão, um serial killer funcional, aparentemente integrado à vida social normal. O detalhe que distingue o personagem de Eduardo Moscovis dos arquétipos do gênero é específico: Brandão inclui a esposa como testemunha dos crimes. Não é cúmplice, é audiência forçada. Esse mecanismo de controle transforma Janete em prisioneira sem grades, e a série explora isso como forma de violência doméstica com camadas pouco exploradas na ficção brasileira.

Tainá Müller contou, em entrevista ao Pop Séries, que leu o livro antes de receber o roteiro, uma escolha que moldou sua abordagem. “Eu pude pegar do livro o que eu achava legal e ver o que essa adaptação trazia de novo. A gente sabia que era uma adaptação literária, não necessariamente precisaríamos nos apegar a todos os elementos.” Essa liberdade em relação ao material original é relevante: a série acrescenta camadas ao enredo e atualiza referências do livro, publicado em 2019.

Os nomes por trás do crime

Moscovis, veterano de produções como O Clone e Dupla Identidade, disse que as referências para construir Brandão vieram do cotidiano, não de manuais de psicopatia. “A gente acompanha na vida um monte de casos próximos, ou de família ou de amigos, ou em jornais, e tem total consciência dessa nossa estrutura, da nossa formação ou deformação.” A declaração reforça a aposta da série em retratar o predador doméstico como figura reconhecível, não como anomalia distante.

Camila Morgado, com carreira sólida no teatro e na televisão brasileira, trouxe para Janete uma observação que sintetiza o tom da produção. “Este tipo de violência está muito próximo da gente. Às vezes já aconteceu e a gente não tenha dado nome, portanto a gente não sabe que se chama violência, doméstica ou psicológica.” O personagem funciona como espelho deliberado para o espectador.

Ilana Casoy, que além de coautora atua como roteirista e produtora da série, é referência obrigatória no estudo de serial killers no Brasil, com livros como Serial Killers Made in Brazil e participação ativa em casos criminais de repercussão nacional. Para ela, décadas de trabalho com crimes reais não eliminam o espanto. “Não é só a violência de um crime em série. Você tem grosserias, rivalidades, maldades que você fala: da onde a pessoa tirou isso? A gente se surpreende todos os dias.”

O que a série representa no contexto atual

Bom Dia, Verônica chega em um momento em que produções brasileiras da Netflix passaram a ter alcance global, após o êxito de 3% e Omniscient Reader, e com crescente demanda internacional por thrillers com protagonismo feminino. A série aposta em um filão que ainda tem espaço na produção nacional: o crime visto de dentro das instituições, com personagens que conhecem o sistema exatamente o suficiente para burlar suas omissões.

Com uma criminóloga no centro criativo e um elenco que veio preparado com referências além do roteiro, a série tem condições de entregar algo além do procedural. A questão é se a adaptação mantém o equilíbrio entre tensão narrativa e responsabilidade com o tema, que no livro original já era a marca registrada da parceria entre Casoy e Montes.

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