A AMC estreia a segunda temporada de Eli Roth’s History of Horror em 29 de outubro, data escolhida a dedo: é véspera de Halloween, e o canal já usou essa janela na primeira temporada para maximizar o apelo temático do programa.
O terror como objeto de estudo, não de consumo
Eli Roth’s History of Horror não funciona como lista de recomendações nem como retrospectiva nostálgica. O formato é mais próximo de um documentário acadêmico com produção de TV a cabo, no qual cada episódio disseca um subgênero ou tema recorrente do horror, como zumbis, possessão e casas assombradas, usando depoimentos de quem fez a história do gênero para explicar por que certas imagens continuam assustando décadas depois. A primeira temporada, exibida em 2018, teve sete episódios e foi recebida com elogios pela crítica especializada, que destacou justamente o equilíbrio entre análise cultural e entretenimento acessível. O programa não trata o espectador como alguém que precisa ser convencido de que o terror é arte. Parte do pressuposto de que ele já sabe disso.
Eli Roth é uma escolha funcional para o papel de âncora. Diretor de Hostel e Cabin Fever, ele tem credibilidade dentro da comunidade do horror sem ser uma figura acadêmica distante. Sabe fazer o gênero e, mais importante para um programa desse formato, sabe falar sobre ele com quem também o faz.
Um elenco que cobre seis décadas de medo
A lista de entrevistados da segunda temporada é o argumento mais forte do programa. Stephen King e Quentin Tarantino já apareceram na primeira temporada e voltam, o que indica que a produção manteve acesso a nomes que raramente participam desse tipo de projeto juntos. A presença de Jordan Peele e Ari Aster coloca na mesma conversa duas gerações de realizadores: Peele, cujo Corra! de 2017 arrecadou mais de 255 milhões de dólares com orçamento de 4,5 milhões, e Aster, que estreou com Hereditário em 2018 e consolidou a A24 como referência no horror de autor.
Bill Hader representa um perfil diferente: ator conhecido pelo comedy, mas com relação documentada de cinéfilo do gênero. Edgar Wright, diretor de Shaun of the Dead, traz a perspectiva de quem usou o horror como linguagem para fazer comédia sem desrespeitar nenhum dos dois gêneros. Rob Zombie e Greg Nicotero chegam pelo lado da execução prática: Zombie como diretor de Halloween e The Devil’s Rejects, Nicotero como o responsável pelos efeitos práticos de The Walking Dead durante toda a sua exibição na AMC, o que não é coincidência de casting, já que o canal tem interesse óbvio em reforçar sua identidade com o gênero.
Piper Laurie e Nancy Allen conectam o programa ao horror clássico dos anos 1970, ambas com participação em obras-chave: Laurie em Carrie, de 1976, Allen em Dressed to Kill, de 1980. A presença de Megan Fox e Jack Black aponta para um esforço de ampliar o alcance do programa além do público já convertido.
Séries de terror assustadoras que você precisa assistir
O horror vive um momento de atenção crítica que não tinha há décadas. Entre 2017 e 2023, filmes do gênero dominaram discussões sobre representação, ansiedade social e narrativa de autor de uma forma que antes era reservada ao drama. Corra! concorreu ao Oscar de Melhor Filme. Midsommar entrou em listas de críticos que normalmente ignoram o gênero. Esse contexto torna um programa como Eli Roth’s History of Horror mais relevante do que seria em 2005: ele existe num momento em que o público e a crítica estão genuinamente interessados em entender de onde o horror vem e o que ele diz sobre quem o assiste.
A segunda temporada chega com mais nomes e, presumivelmente, mais subgêneros para cobrir. Quem assistiu à primeira sabe o que esperar. Quem não assistiu tem agora um argumento concreto para começar.
Amanda Negrini é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Especialista em cultura pop e comportamento, é pesquisadora musical e autora da tese acadêmica “A Evolução das cantoras Pop Americanas: a criação de Madonna e a inovação de Lady Gaga".
Com credencial de imprensa internacional, cobriu eventos como a San Diego Comic-Con e a New York Comic-Con, realizando entrevistas exclusivas com criadores e elencos de produções globais como The Walking Dead, Supernatural e Cobra Kai. No Pop Séries, dedica-se à análise de premiações, videoclipes, comportamento no entretenimento e à cobertura de séries clássicas e contemporâneas.

