Gale Anne Hurd esteve no Brasil em outubro de 2014 para uma palestra na Rio Market, evento de coproduções audiovisuais realizado no Rio de Janeiro, e concedeu entrevista exclusiva ao Pop Séries. Na ocasião, a produtora executiva de The Walking Dead falou sobre os bastidores do drama zumbi, a relação da série com os quadrinhos originais e o futuro do universo criado por Robert Kirkman.
A mulher por trás do apocalipse
Hurd carrega um currículo que poucos produtores de Hollywood conseguem igualar. Ela foi co-roteirista e produtora de O Exterminador do Futuro em 1984, título que em 2014 completava exatamente 30 anos, e manteve sua assinatura em sequências e projetos de ação ao longo das décadas seguintes. A afirmação que ela faz sobre seu próprio trabalho não é modéstia: é consistência verificável. “Todos os meus filmes colocam mulheres no papel principal. O tema recorrente é como pessoas ordinárias encontram força para sobreviver em circunstâncias extremas”, disse durante a palestra.
Essa lógica se aplica diretamente a The Walking Dead. A série estreou na AMC em outubro de 2010 com um piloto dirigido por Frank Darabont e quebrou recordes do canal desde o primeiro episódio. Na quarta temporada, exibida em 2013 e 2014, a série registrou médias superiores a 15 milhões de espectadores por episódio nos Estados Unidos, tornando-se o drama mais assistido da TV a cabo americana em décadas. O desempenho transformou a AMC, canal até então conhecido por Mad Men e Breaking Bad, em referência obrigatória para dramas de prestígio.
Fiel o suficiente para surpreender
A adaptação televisiva partiu dos quadrinhos criados por Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard, publicados desde 2003 pela Image Comics. Hurd foi direta ao explicar a filosofia de adaptação adotada pela produção: “The Walking Dead é inspirado nos quadrinhos, mas não é igual a eles a ponto de os fãs saberem tudo o que vai acontecer.” Na prática, isso significa que personagens morrem em ordens diferentes, arcos são comprimidos ou expandidos e algumas figuras centrais das HQs nunca chegaram à televisão, enquanto outros, como Daryl Dixon, vivido por Norman Reedus, foram criados exclusivamente para o show.
Sobre o boato de que Daryl seria gay na quinta temporada, Hurd foi direta: “No show não fazemos distinções sobre a sexualidade dos personagens. É bom se ele for ou não; eles podem ser quem realmente são e não precisamos fazer esses julgamentos.” O personagem nunca teve sua sexualidade definida explicitamente na série, o que alimentou debates entre os fãs por anos. Kirkman chegou a dizer em 2014 que lamenta não ter tornado Daryl assumidamente gay desde o início, considerando a repercussão positiva que teria.
O spin-off que amplia a franquia
Gale Anne Hurd também confirmou ao Pop Séries o andamento do spin-off que a AMC havia encomendado naquele ano. O projeto, referido como The Hunters durante o desenvolvimento, foi ao ar em agosto de 2015 com o título definitivo Fear the Walking Dead. A série acompanha o início do apocalipse em Los Angeles e foi criada por Kirkman em parceria com Dave Erickson. A AMC encomendou 13 episódios para a primeira temporada antes mesmo do piloto ser exibido, sinal de confiança direta no desempenho comercial da franquia.
Fear the Walking Dead estreou com 10,1 milhões de espectadores no episódio de lançamento, quebrando o recorde de estreia de séries a cabo nos Estados Unidos, marca que pertencia à própria The Walking Dead. O universo que Hurd ajudou a construir havia se tornado grande o suficiente para competir consigo mesmo.
A visita ao Brasil em 2014 aconteceu num momento em que The Walking Dead ainda estava no pico de sua influência cultural. O que viria depois, incluindo a queda gradual de audiência a partir da sétima temporada e o encerramento da série principal em 2022, tornaria aquele período ainda mais relevante como marco de quando o zumbi dominava a televisão americana.
Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.



