Madeline Brewer esteve em São Paulo na última semana para a coletiva de imprensa da segunda temporada de The Handmaid’s Tale, que estreia no Paramount Channel a partir deste domingo (2), às 21h. A atriz, que interpreta Janine desde a primeira temporada, falou sobre o peso emocional da série, o que significa vestir o manto vermelho e por que uma distopia como essa continua ressoando com o público feminino.
Além de Atwood: o que a série construiu sozinha
The Handmaid’s Tale estreou no Hulu em abril de 2017 e rapidamente superou os limites do livro de Margaret Atwood, publicado em 1985. A primeira temporada adaptou o romance completo em dez episódios e terminou em um ponto que o livro não alcança. Isso significa que a segunda temporada, com treze episódios, entra em território inédito, escrita pelo showrunner Bruce Miller com aval e participação ativa de Atwood. É a primeira vez que uma adaptação da obra avança além do que a autora colocou no papel, o que dá à série uma posição rara: ela virou, ao mesmo tempo, continuação oficial e expansão canônica.
A história de Offred, a Aia forçada a servir como reprodutora num regime teocrático nos Estados Unidos, ganhou urgência política que poucos esperavam. O manto vermelho virou símbolo em protestos contra restrições ao aborto nos EUA, no Canadá e na Argentina. Brewer, que interpreta Janine, uma das personagens mais perturbadoras da série por carregar o trauma mais exposto, falou em São Paulo sobre como é difícil sair do set depois de determinadas cenas. Segundo ela, o figurino ajuda a criar distância, mas também aprisiona: vestir aquele manto é entrar num estado mental que não se desliga com facilidade.
O elenco que transformou distribuição em prêmio
Elisabeth Moss, que protagoniza a série como June Osborne, vinha de treze anos como Peggy Olson em Mad Men, série que terminou em 2015. The Handmaid’s Tale foi sua primeira indicação ao Emmy como atriz principal de drama, e ela levou o prêmio em 2017, na mesma cerimônia em que a série ganhou Melhor Drama. Foi a primeira produção de um serviço de streaming a vencer essa categoria na história do Emmy, quebrando uma sequência de vitórias de emissoras tradicionais como HBO e AMC.
Na temporada seguinte, confirmando que não foi sorte, a série chegou ao Emmy 2018 com 20 indicações, incluindo novamente Melhor Série Dramática e Melhor Atriz para Moss. Yvonne Strahovski, que interpreta Serena Joy, entrou na disputa como atriz coadjuvante, e Ann Dowd, a Tia Lydia, repetiu a indicação que já havia rendido a ela o prêmio no ano anterior. É um elenco que funciona como conjunto, algo que a produção cultiva conscientemente: as atrizes relataram em entrevistas que o ambiente no set é deliberadamente colaborativo, uma escolha que reflete o que a série tem a dizer sobre solidariedade entre mulheres.
Séries feministas que desafiam o gênero
O que muda quando a distopia ultrapassa o livro
A segunda temporada abre com June ainda presa em Gilead, apesar do final ambíguo da primeira. O Hulu não divulgou números detalhados de audiência, mas a plataforma confirmou que The Handmaid’s Tale foi a série mais assistida de sua história até o momento do lançamento da segunda temporada, dado que sustentou a renovação ainda antes do término da primeira. No Brasil, a exibição pelo Paramount Channel traz os episódios poucos meses após a janela americana, um intervalo bem menor do que o habitual para séries de prestígio chegarem à TV por assinatura.
Para quem acompanhou a primeira temporada, a segunda promete ir a lugares que o livro protegeu o leitor de ver. Atwood criou Gilead com lacunas intencionais: o que não era dito tinha tanto peso quanto o que era. Miller e a equipe de roteiristas agora precisam preencher essas lacunas sem desfazer o que as tornou poderosas. Esse é o desafio real da temporada, e é o que vale acompanhar.
Amanda Negrini é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Especialista em cultura pop e comportamento, é pesquisadora musical e autora da tese acadêmica “A Evolução das cantoras Pop Americanas: a criação de Madonna e a inovação de Lady Gaga".
Com credencial de imprensa internacional, cobriu eventos como a San Diego Comic-Con e a New York Comic-Con, realizando entrevistas exclusivas com criadores e elencos de produções globais como The Walking Dead, Supernatural e Cobra Kai. No Pop Séries, dedica-se à análise de premiações, videoclipes, comportamento no entretenimento e à cobertura de séries clássicas e contemporâneas.

