Entrevista: Gregório Duvivier fala sobre estreia da animação ‘Luck’

luck apple tv+

Luck estreia na Apple TV+ nesta sexta-feira (5) com dublagem brasileira assinada por Gregório Duvivier, ator e humorista conhecido por Porta dos Fundos e pela série Nada Será Como Antes, do Canal Brasil.

O mundo onde a sorte tem endereço

A animação acompanha Sam, uma jovem de 18 anos que acabou de sair do sistema de acolhimento sem nunca ter sido adotada. Ela carrega o título informal de pessoa mais azarada do mundo, o que no universo do filme é algo quase literal. A virada acontece quando ela tropeça num gato preto chamado Bob, que deixa cair uma moeda dourada. O objeto a transporta para a Terra da Sorte, um lugar que existe fora do alcance dos humanos comuns e onde a boa e a má sorte são gerenciadas como se fossem recursos naturais.

A premissa tem parentesco com a tradição dos estúdios de animação que constroem mundos paralelos com regras próprias, como Monstros S.A. e A Origem dos Guardiões. Luck foi produzido pela Skydance Animation, divisão fundada em 2017 pelo produtor David Ellison, e marca a segunda aposta do estúdio em animação familiar depois de Luck ter sido precedida internamente por projetos que sofreram trocas significativas de liderança criativa. O diretor Alessandro Carloni, que trabalhou em Kung Fu Panda 3, assina o longa ao lado da roteirista Kiel Murray, veterana de Carros 2 e Carros 3.

O elenco original reúne Eva Noblezada como Sam, e nomes conhecidos do público adulto como Jane Fonda, Whoopi Goldberg e Simon Pegg. Fonda e Goldberg interpretam figuras dentro da Terra da Sorte, enquanto Pegg dá voz ao gato Bob, personagem escocês no original.

De Gregório para o Bob carioca

É justamente o personagem de Pegg que Duvivier assumiu na versão brasileira, e a escolha de sotaque diz muito sobre como o processo de dublagem funciona. Segundo o humorista, os atores brasileiros geralmente não têm acesso às gravações originais durante o trabalho, o que abre espaço para adaptações culturais deliberadas. No lugar do sotaque escocês, Duvivier optou pelo carioca. “Fiz bem carioca, porque acho que é um personagem marrento e se tem um brasileiro marrento é o carioca”, disse.

A decisão não é apenas de estilo. Em dublagem, o sotaque carrega relação de poder, atitude e pertencimento. Traduzir um escocês debochado para um carioca debochado mantém a função dramática do personagem sem exigir que o espectador decodifique uma referência cultural que não é a sua.

Duvivier tem histórico em animação: dublou personagens em produções infantis e tem no humor verbal uma das suas marcas mais reconhecíveis, o que faz sentido para um gato que, no original, opera entre o sarcasmo e o charme.

O que o filme diz quando a sorte acaba

Luck chega à Apple TV+ num momento em que a plataforma ainda consolida seu catálogo de animação, setor em que concorre diretamente com Disney+, Netflix e Paramount+. O serviço da Apple tem apostado mais em séries live-action de prestígio, como Ted Lasso e Severance, e o longa animado representa uma tentativa de ampliar o alcance para o público infantil e familiar.

Para além da estratégia da plataforma, o filme carrega uma mensagem que Duvivier resumiu bem: “Todo mundo tem sorte em alguns momentos e, ao mesmo tempo, a gente tem que lutar por ela.” Sam não é azarada porque o universo conspira contra ela. É azarada porque cresceu sem rede de proteção, sem família, sem os acasos favoráveis que muita gente confunde com mérito. A Terra da Sorte, nesse sentido, não é um lugar mágico e escapista. É uma metáfora sobre o que acontece quando alguém finalmente tem acesso ao que sempre esteve disponível para os outros.

Para um filme infantil, é uma escolha narrativa mais honesta do que parece à primeira vista.

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